O rei.

Ele tinha tudo. Tinha vencido a vida, enfrentado todos os demônios que seus pais temiam, e triunfado. Um futuro brilhante, um passado impecável e um presente cheio de possibilidades, tudo que ele tinha (que fazer) era escolher. Ele tinha tudo. Ele podia tudo.
E os amigos se foram, escorregados por entre seus dedos, tomados pelos inadiáveis compromissos. E os amores se foram, tirados de sua boca, levados pela promessas inquebráveis. E a família se foi, desvencilhada de seu abraço, carregada pelos destinos inevitáveis. E ele não tinha mais nada, só as promessas de um vida sem escolhas.

Flertando a felicidade

Fabricio entrou no escritório, deu uma olhada na roupa justa da secretária, desejou um bom dia, comentou o batom vermelho dela.

- Obrigada, e esse seu cabelo, quem penteou?
- Minha mãe - mentiu Fabrício com um sorriso.
- Não foi sua mãe não menino, fala a verdade - a secretária esforçou uma cara séria enquanto um sorriso torto entregava a brincadeira.
- Minha mulher - Fabrício riu e se foi.
- Olha só, ele fala que é a mãe dele…ai se eu encontro essa mulher.

Todo dia eles jogavam essa brincadeira, algumas vezes era a marmita, em outras, a roupa impecavelmente passada. No fundo a secretária queria ser essa mulher, e Fabrício queria deixar de passar as suas roupas.

Fim de Namoro

Eu quero terminar com o Mundo. Não é ele, sou eu. Acho que não estou pronto pra um relacionamento tão serio. Não é que não esteja bom, sabe, é só que não é o que eu esperava. Não que eu tivesse muitas expectativas, eu e ele sabiamos que isso não ia durar muito, era um lance mesmo. Mas eu tinha algumas. Eu e o mundo viemos tendo algumas brigas de lá pra cá, e a bem da verdade, em boa parte dos últimos meses tudo que eu quero é que todo Mundo se exploda. Não acho saudável desejar tanto mal pro Mundo. Então decide terminar com ele. Vou acabar com o Mundo.

Melhor do que deixar as coisas ficarem piores, e eu acabar querendo destruir o Mundo. A verdade é que não está bom, nosso relacionamento não é aquela troca saudável sabe, onde nos trocamos figurinha, um segura a barra do outro, compartilhamos os problemas.

Quer saber, o problema é o sexo, não dá certo, o Mundo só quer me fuder e nunca dá tempo de revezar.

Coletivo.

Ela se foi num ônibus cinzento. Subiu no coletivo lotado, se apertou entre tantos outros que não sobrou espaço pra mim. E se foi.
Sentado na parada de ônibus a ver meu amor se ir, sem nem saber dos meus sentimentos. Deixei que o ritmo da música se misturasse ao da chuva que caia nas ruas alagadas de uma cidade qualquer, abandonada como eu. Pensei por instantes nos cabelos molhados dela, pensei neles ali sobre os ombros dela, a cair num velho casaco preto. Pensei neles aqui, nas minhas mãos, imaginando a textura cremosa do creme que escorria entre meus dedos. O cheiro de condicionador barato.
Deixei que água caísse sobre mim, e caminhei, já não queria um ônibus que não ia me levar até ela, pra quê seguir por um caminho que já não me leva ao futuro. Deixei a calçada decidir meus passos, enquanto meus pés desviavam de buracos e brincavam com os blocos que compunham a trilha. Linhas de morte, agora já sem significados diante do futuro morto. Deixei que a água pingasse dos meus cachos, dos cabelos lisos e de todos os amores que nunca souberam de mim.
Caminhei na esperança de que um carro parasse, me oferecesse carona. Que em algum deles um sorriso sem nome, mas de memória antiga me sorrisse, talvez de alguma festa, ou mais uma que entrou num ônibus qualquer, pra um lugar longe de mim. Mas nenhum carro parou, com ou sem sorriso. 
A calçada me levou, deixou que eu seguisse um longo caminho, mas acabou, e em frente a mim a realidade inerte a minha dor me enfrentou: as mulheres ainda existiam, assim como as paradas. E parei, na espera desse ônibus.

Sonho consumista.

14:13. Um bocejo. Mandibulas abertas para o sol que vinha da janela. Olhos comprimidos permitindo a boca um pouco mais de abertura. Ela tira o cabelo do rosto, apoia a cabeça sobre o braço esquerdo e tenta mais uma vez se concentrar. Algo sobre consumismo, sociedade perdida e a professora de vestido verde horroroso. Ela parecia uma bruxa. Os pálpebras pesam, todo a concentração se volta para se manter acordada. Pernas esticadas se cruzam, se confortam e logo a cabeça cai da mão, se recupera antes de acertar a cadeira. Um filete de baba escorrega pela mão. Envergonhada ela observa se alguém havia notado. Mais uma tentativa de se concentrar. Consumismo, verde.
AI! O barulho chama a atenção de algumas pessoas, mas o professor continua inerte na sua descrição de algo sobre consumismo e…os olhos se abrem de repente, um último esforço, com a cabeça já apoiada sobre o braço na mesa. Ela levanta o outro braço, um esforço heroíco para olhar as horas: 14:18.
Porra! 5 minutos? Toma no cu essa merda!
E ela cai em sonhos verdes de vestidos consumistas.

Dilema do alívio.

Tudo começou pela manhã, num copo cônico sendo preenchido com leite. E então começou o maior dilema da vida de Gilberto. A música alta preenchia sua mente, todo seu corpo concentrado na letra “…how does it feel in my arms (tun tiz ta)…”, e então o momento que nos leva até o centro da cidade, o cruzamento de duas grandes avenidas. O sinal se abre e o movimento dos pedestres indica a Gilberto que ele pode cruzar a pista. Sua mochila se prende num arame preso ao poste, apenas um pequeno corte no tecido preto é causado, mas foi o bastante para que Gilberto perdesse 12 segundos tentando solta-la. Quando parte da sua atenção volta a cruzar a pista o sinal de atravessar lhe pisca vermelho, e somente uma ideia lhe cruza a mente: “tenho que atravessar logo”.Gilberto prepara para uma corridinha leve quando sente a fermentação do leite fazendo resultado.
Agora paremos caro leitor, eu menti, a verdade é que esta história é muito anterior a manhã daquele dia, quando Gilberto preenchia seu copo com leite. Sejamos francos, tudo aconteceu quando após dois copos de vinho e uma noite bem alegre a mão de Gilberto consegue convencer seu pai a ter um filho, a ideia parecia boa, agora pulemos o ranger da cama, os tapas e demais “elogios” daquele momento sagrado para quando o esperma mais sortudo dos vários (o número é incerto e o google está uma janela distante de mim) consegue penetrar as barreiras do óvulo. Neste momento duas massas de informação colidem, gerando dialeticamente este individuo formidável do qual chamamos de Gilberto, que foi deste momento em diante fadado a ser intolerante a leite. 
Então naquela tarde de 3 de julho Gilberto atravessava o cruzamento de duas importantes ruas da cidade, mas como Gilberto se lembraria por varias noites, ele havia sido retardado pela mochila, então cruzava a pista com ele somente uma menina, que ao ver o sinal se fechar se apressou para cruzar a pista. Seu nome era Solange, e sua mãe era insuportável quando ela se atrasava para o encontro que as duas tinham nos almoços da sexta.
E então o alívio. Repentino, e tão bem ele veio, e seu corpo se relaxou, e o pulmão se inflou novamente feliz por ganhar de volta o espaço que era seu, o alívio se foi, a dúvida cruzou seu rosto como o vento frio que vem do mar. Ele tirou os fones mas já não havia mais nada para ouvir, seus olhos procuraram pela rua algum sinal, mas já não havia ninguém ali, somente a menina, que parou do outro lado da rua, olhou em seus olhos e riu.
Gilberto jamais soube, e é bem verdade que Solange viria a ser sua mulher, mas nunca em sua vida ele teve coragem de descobrir, se ela o havia ouvido.

Me lembro, logo…

Me lembro de quando deixamos nossas línguas se encostarem quando lambemos o doce de leite da colher, do doce se misturar a sua saliva, e descer pela minha garganta enquanto nos beijamos. Me lembro da sua coxa quente deslizando por entre as minhas, enquanto lambia lentamente meu pescoço num esforço de me acordar, já acordado. Me lembro dos seus dedos se agarrando as minhas costas, criando uma linha de ardência e sangue com suas unhas, silenciada pelos gemidos longos que você produzia no meu ouvido. Lembro da sensação de possuir seus seios, que eu só podia ter quando deixava que a minha boca se abrisse sobre eles, e minha língua se espalhasse em torno do seu mamilo, sentindo o gosto da sua pele suada. Lembro de ouvir o momento em que no ápice do seu prazer você perdia a voz, perdia a sensação das pernas, perdia tudo e se entregava a um único e inexplicável momento de prazer.
E de alguma forma me lembrar disso me faz ver que eu te criei, porque esses momentos são meus, você é minha, são Fabianas, Letícias, Vanessas, Alices e outras tantas que ao longo de tantas noites se perderam em minha mente, e se tornaram uma, uma personificação de tudo que vivi com um corpo feminino e que essa noite me permitem me masturbar com propriedade.

A mim.

Um dia a pintaram, lhe deram a voz, feita de doce e perfume. Lhe deram lágrimas pra torturar meu coração. Um dia a escreveram, lhe deram a textura das flores pra que eu tremesse ao senti-la. Lhe deram o sabor da lua, pra que eu nunca esquecesse de procurar por seus beijos no escuro. Um dia ela foi cantada, e lhe deram curvas onde eu me perdi e cai em loucura. Lhe deram o brilho do sol, e nos seus olhos eu me cego, inerte ao movimento de sua hipnose.
Por você eu viajei um mundo, na esperança de morrer só um pouco em ti. Por você ouvi mil vezes a mesma música, nas esperança de que ela falasse apenas sobre nós dois. Por você eu olhei o mar com outros olhos, porque ele era apenas uma expressão tosca do nosso amor. Por você eu quebrei as regras gramaticais, porque todas as palavras deviam vir em letras maiúsculas, porque foram criadas para ser ditas pra você. 
Mas matei os poetas na boca de outras, deixei meu amor na distância como quem marca o caminho do pão. Pouco a pouco torturei todos nossos anjos pra superar a agonia da solidão. Te desenhei na parede e a beijei esperando sentir algum calor, mas só o frio me abraçava. Joguei pimenta nas feridas pra ficar forte, e tudo que consegui foram mais dores, e eu ria. Queria um falso amor, queria a certeza do ódio. E confesso enfim, não sei amar.