Dilema do alívio.
Tudo começou pela manhã, num copo cônico sendo preenchido com leite. E então começou o maior dilema da vida de Gilberto. A música alta preenchia sua mente, todo seu corpo concentrado na letra “…how does it feel in my arms (tun tiz ta)…”, e então o momento que nos leva até o centro da cidade, o cruzamento de duas grandes avenidas. O sinal se abre e o movimento dos pedestres indica a Gilberto que ele pode cruzar a pista. Sua mochila se prende num arame preso ao poste, apenas um pequeno corte no tecido preto é causado, mas foi o bastante para que Gilberto perdesse 12 segundos tentando solta-la. Quando parte da sua atenção volta a cruzar a pista o sinal de atravessar lhe pisca vermelho, e somente uma ideia lhe cruza a mente: “tenho que atravessar logo”.Gilberto prepara para uma corridinha leve quando sente a fermentação do leite fazendo resultado.
Agora paremos caro leitor, eu menti, a verdade é que esta história é muito anterior a manhã daquele dia, quando Gilberto preenchia seu copo com leite. Sejamos francos, tudo aconteceu quando após dois copos de vinho e uma noite bem alegre a mão de Gilberto consegue convencer seu pai a ter um filho, a ideia parecia boa, agora pulemos o ranger da cama, os tapas e demais “elogios” daquele momento sagrado para quando o esperma mais sortudo dos vários (o número é incerto e o google está uma janela distante de mim) consegue penetrar as barreiras do óvulo. Neste momento duas massas de informação colidem, gerando dialeticamente este individuo formidável do qual chamamos de Gilberto, que foi deste momento em diante fadado a ser intolerante a leite.
Então naquela tarde de 3 de julho Gilberto atravessava o cruzamento de duas importantes ruas da cidade, mas como Gilberto se lembraria por varias noites, ele havia sido retardado pela mochila, então cruzava a pista com ele somente uma menina, que ao ver o sinal se fechar se apressou para cruzar a pista. Seu nome era Solange, e sua mãe era insuportável quando ela se atrasava para o encontro que as duas tinham nos almoços da sexta.
E então o alívio. Repentino, e tão bem ele veio, e seu corpo se relaxou, e o pulmão se inflou novamente feliz por ganhar de volta o espaço que era seu, o alívio se foi, a dúvida cruzou seu rosto como o vento frio que vem do mar. Ele tirou os fones mas já não havia mais nada para ouvir, seus olhos procuraram pela rua algum sinal, mas já não havia ninguém ali, somente a menina, que parou do outro lado da rua, olhou em seus olhos e riu.
Gilberto jamais soube, e é bem verdade que Solange viria a ser sua mulher, mas nunca em sua vida ele teve coragem de descobrir, se ela o havia ouvido.